22 de mai. de 2013

Incompletude

Quando eu era criança gostava de quebra-cabeças. Quanto mais difíceis melhor. Quanto mais e menores peças tivessem, melhor.
Gostava, também, de albuns de figurinhas. Coloridos, de preferência daqueles onde as figurinhas vinham num pacotinho fechado semanal. Sempre uma esperança, quase sempre uma surpresa.
Cedo descobri que sempre faltavam peças no final do quebra-cabeça. E não lembro de ter, algum dia, completado um álbum.
Incompletude…
Somos e vivemos histórias inacabadas. Casas quase decoradas, cursos quase terminados, metas quase cumpridas… Sinfonias inacabadas é o que somos. Textos sem ponto final. Vivemos colecionando espaços vazios.
O pior é que objetivamos as finalidades. Empurramos nossos começos para que peguem no tranco. Buscamos o pleno, quando a regra é a lacuna.
Aquilo que falta desenha canions na superfície de cada dia. E as nossas rugas são rios de ausências. Porém, seguimos impávidos, esperando a figurinha que falta.

21 de mai. de 2013

À primeira vista
(Chico César)

Quando não tinha nada, eu quis
Quando tudo era ausência, esperei
Quando tive frio, tremi
Quando tive coragem, liguei

Quando chegou carta, abri
Quando ouvi Prince, dancei
Quando o olho brilhou, entendi
Quando criei asas, voei
[...]
O amor quer abraçar e não pode.

A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

(Adélia Prado)